quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Açaçinato

Tá bom.

Encaro com naturalidade que um senhor simplório me aborde na rua perguntando pela loja de material SIDERÚRGICO, quando quis dizer CIRÚRGICO, o que aconteceu anteontem. Também não há grande problema em que as pessoas não falem no dia a dia "a cidade PARA A QUAL vou" ou "a pessoa COM QUEM estive". E o total desinteresse pela palavra CUJO talvez seja pela proximidade com um certo palavrão.

Mas há categorias profissionais em que o uso da língua portuguesa é ferramenta básica. Imagine um apresentador de jornal, um locutor de rádio, até mesmo um padre ou pastor, falando com erros grosseiros de ortografia, ou gaguejando e se perdendo no meio de uma frase por falta de vocabulário. Há uma outra profissão, com a qual tenho convivido desde a metade do ano passado e estimadamente até o fim deste ano. Parece-me não haver nenhum cuidado em relação a isso por parte da instituição que contrata. É duro ouvir com frequência, vindo de quem vem, os SEJE da vida, ou RENUMERADO repetido em lugar de REMUNERADO (será que é porque eu deveria enumerar as vezes em que ouvi?) Ou ainda, explicações que não explicam nada por falta de preparo, de treino, para a ferramenta da oratória.

Não darei nome aos bois, mas quem está ligeiramente a par da minha vida sabe de quem estou falando.


(Primeira das "Reflexões de um Recém-Cinquentão" ─ ainda com hífen, para minha satisfação... Opa, rimou!)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Crise?

Não sei se estamos numa crise. Crise se define no dicionário mais ou menos como "situação AGUDA de agravamento de um estado ruim". Então, posso talvez chamar de crise o que vimos na época do Sarney, nos anos 1980, quando as prateleiras dos supermercados ficaram totalmente vazias e a inflação beirou dobrar o preço das coisas a cada mês.
O que vejo hoje é uma época de readaptação, e que não é aguda. Vem sendo construída desde o surgimento da internet e não haverá volta a um estado anterior, como costuma acontecer nas crises ─ por exemplo, uma crise alérgica.
Sem entrar em detalhes: sim, entendo que esse avanço tecnológico em tempo curtíssimo, esses 25 anos em que saímos da carta datilografada para o smartphone, é o ponto de partida para uma enorme transformação, que atinge relacionamentos, família, trabalho, profissões, economia, comunicação... Tudim, tudim. E neste momento, o que vem sendo considerado crise parece ser o ápice da zona. Se eu entendi umas aulas que vi no Youtube, isso faz parte do que os filósofos chamam de "pós-modernidade". Quando a poeira baixar, o equilíbrio vai se restabelecer com outros padrões, com uma outra ideia do que é "viver bem" ─ e provavelmente esse conceito será bem mais modesto do que o atual.

*Mais uma das "Reflexões de um Quase Cinquentão", que estará no provável livro que lançarei quando for talvez um quase sessentão.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Choque

Por volta dos meus quarenta anos, eu disse que "muita coisa me choca, mas nada me surpreende."
Neste ano, vi que posso me surpreender com a dimensão que um choque pode ter.

(escrevo especialmente hoje, 13/12, data que seria de um certo aniversário)

Sólido

Em tempos de tantas possibilidades e variáveis de relacionamentos, tenho aprendido a solidez durante a solidão.

* Mais uma das "Reflexões de um Quase Cinquentão"

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

De AAA a ZZZ, passando pelo BBB

Há uns dez anos, por conta de uma história que eu levaria uns parágrafos pra descrever, fiquei sem sinal de televisão por uns quatro meses no meu apartamento.
Santa época. Eu concluí de vez que o tal aparelho não me fazia a menor falta. Ainda eram tempos sem Youtube, sem a febre das redes sociais e, mesmo assim, eu vi que a internet já me abastecia. Hoje, eu vejo tudo na net - até os poucos, raríssimos, programas de tevê que me interessam. E pode descartar da lista TODOS os canais abertos, 100%.
Noticiários? Descarto o humor negro masturbado à exaustão nos policiais e nas tragédias. Só vou na net em matérias e artigos que acrescentam.
Esportes? O nosso querido futebol virou mais uma empresa de marketing e caiu no meu descrédito. Jogos me servem de sonífero. Seleção brasileira, com Ricardo Teixeira? Dá não. É o mesmo que torcer pros Irmãos Metralha, o mesmo que aplaudir Collor, Maluf, Sarney, Pallocci e afins. Hoje, acompanho as notícias de um arremedo de clube que virou o meu Palmeiras. Quem sabe, um dia, ele será de novo digno de minha atenção em campo. Prefiro passar as tardes de domingo jogando sinuca (de verdade, e não em videogame) com uns amigos. Vejo na tevê algumas modalidades olímpicas, no gelo ou no calor.
Reality shows? Ah sim, aí existem uns bons! No Canal FoxLife. Como o daquele mestre-cuca que vai salvar mundo afora restaurantes que estão indo à falência. BBB é palavrão, pra mim.



Calor

O calor não é tão ruim. A gente pode colocar ao sol as roupas pra secar e os sapatos pra perder o chulé.
No mais, desce uma Cloud gelada aí, garçom Pedro!

(das "Reflexões de um Quase Cinquentão")

sábado, 19 de setembro de 2015

Matemática anti-homofóbica

(para o provável livro "Reflexões de um quase cinquentão")

Embora eu tenha me formado e trabalho toda a vida na área de Humanas, a Matemática me atrai. Ela pode ser, em muitas situações, o melhor modo de demonstrar minha maneira de pensar. Este é um caso.

Situação 1

Imaginemos que a humanidade mande para o planeta A, desabitado, dois casais: A1 e A2. Ambos heterossexuais. São casais geneticamente preparados para gerar quatro filhos cada um (dois homens e duas mulheres) que vão se cruzar futuramente com os filhos do outro casal e, da mesma forma, gerar dois homens e duas mulheres, sempre. E assim sucessivamente, o que fará que cada nova geração tenha o dobro de pessoas da anterior. Pergunta 1: considerando que ninguém morra neste planeta, quantas gerações serão necessárias até que se chegue a aproximadamente 7 bilhões de habitantes, atual população da Terra?
Não precisa pensar, já dou a resposta: 32 gerações, pois trata-se de uma progressão geométrica, a população vai sempre dobrando.

Situação 2

Imaginemos que, no mesmo dia, sejam enviados para o planeta B, desabitado, dois casais: B1 e B2. Ambos geneticamente preparados para gerar quatro filhos cada um, como no planeta A (dois homens e duas mulheres) MAS sendo que um homem e uma mulher serão homossexuais, ou seja, nâo irão reproduzir. Neste caso, o que acontece é que a uma geração nunca vai ter o dobro de pessoas da anterior como no planeta A, mas o MESMO número de pessoas: 4. Pergunta 2, igual à pergunta 1: considerando que ninguém morra neste planeta, quantas gerações serão necessárias até que se chegue a aproximadamente 7 bilhões de habitantes, atual população da Terra?
Resposta 2: 1,75 bilhões de gerações, pois trata-se de uma progressão aritmética, 4 + 4 + 4 + 4...

Pergunta 3: Em 1,75 bilhões de gerações (resposta da pergunta 2), quantos habitantes terá o planeta A?
Resposta: 2 elevado a 1,75 bilhões, o que dá um número de 21 algarismos: 872.000.000.000.000.000.000. Por extenso? oitocentos e setenta quintilhões.

E o que significa esse número monstruoso? Quero dizer que, hipoteticamente, se não houvessem homossexuais no mundo, seria talvez dessa grandeza a população atual da Terra.
Então, além de acreditar que o respeito dado a um ser humano não deve ser medido por sua escolha sexual, penso que a Natureza não faz nada por acaso.

PS: se eu estiver errado nos cálculos, minha amiga Fernanda Bastos irá me corrigir.